SEM UM ARRANHÃO

Seria ótimo ter um pote grande disponível na gôndola do mercado.

Seria maravilhoso sacar o celular e pedir um pacotão via aplicativo.

Seria encantador saber que um dia, alguém bateria na minha porta para resolver todos os meus problemas.

Infelizmente, não é assim que a vida acontece.

Felicidade requer experiência, e isso exige um ato de coragem.

A solução de pequenos e grandes desafios depende da primeira escola.

Sim, daquele tempo em que tudo era novidade e éramos reféns de nossos primeiros professores.

Pais, mães, irmãos, tios, avós, primos, vizinhos e amiguinhos.

Não havia escolha! Todo o nosso primeiro e mais importante aprendizado vem deles, inevitavelmente.

E de todas as experiências que vivemos em cada espaço físico, juntos com essas pessoas.

Lembra de visitar algum lugar da sua infância e perceber que ele agora parece muito menor.

Tudo o que acontece na infância soa muito maior do que realmente é.

Daí a importância da qualidade do que ouvimos, vemos, degustamos, sentimos e, consequentemente, desejamos nos primeiros anos da nossa existência.

Momentos marcantes são aqueles que deixam cicatrizes, literalmente, na pele e na alma.

Tristes ou felizes, são eles que nos fazem lembrar do que é verdadeiramente importante.

No meio da multidão de lembranças e emoções vividas, a cicatriz serve de palco para dar destaque ao que vai nos guiar pelo caminho.

Se é relevante é porque está sobre um lugar mais alto, de onde é possível entender o sentido de nossa jornada.

Não é possível construir uma vida criativa sem sentir dor.

Não conseguimos dar significado a nada se negamos oportunidade de interação com quem não se parece com a gente.

É no contraste entre pedra e metal que amolamos uma faca. Uma mente afiada nunca perde o fio da meada.

É na troca de ideias e no desconforto de realocar pensamentos que percebemos que é preciso abrir mais as asas, caso contrário nenhum voo será possível.

Sem se machucar não há imunidade física e nem mesmo emocional.

Seria ótimo ser criativo sem um arranhão. Incólume.

Seria maravilhoso construir uma vida de criatividade sem nunca ter tombado pelo caminho, bebido de experiências amargas e nem mesmo enfrentado desilusão e arrependimentos.

A própria natureza ensina que adaptação é a regra mestre para viver intensamente. Ela, depois de bilhões de anos, aprendeu a dançar conforme a estação, em um eterno baile com outonos, primaveras, invernos e verões.

Não existe tempo para descanso e nem espaço para o descaso.

Tudo tem valor. Tudo está em movimento. E nada, nunca está terminado.

Se somos poeira estelar e temos a força do próprio universo pulsando em nosso DNA, não devemos ter medo do caos e das infinitas surpresas que a vida ainda tem preparadas para nós.

A dor é parte da poesia de nossa existência.

Não devemos amar a dor, pura e simplesmente.

Devemos apenas respeitar a sua força e evitar fingir que ela não existe.

Em cada experiência somos desafiados a explorar um pouco mais do infinito universo que há dentro de nós.

A neurociência já provou que o nosso cérebro aprende até o último segundo de vida.

Cicatrizes, físicas ou emocionais, são passaportes para uma história que, mais do que vivida, vale a pena ser contada eternamente.

Uma vida sem arranhões é como um banquete sem tempero, um mar sem ondas, um céu sem estrelas ou um baile sem música.

A criatividade humana temperou nossa história, aprendeu a surfar grandes desafios e criou foguetes para visitar as estrelas.

E mais!

A nossa melhor e mais encantadora canção é composta quando aprendemos com nossos erros e seguimos em frente, acreditando que é na conexão com outras pessoas, todas elas, que encontramos a nossa maior e inigualável beleza criativa.

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Professor - Pesquisador - Consultor de Criatividade / Professor Researcher - Creativity Advisor.

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William Barter

Professor - Pesquisador - Consultor de Criatividade / Professor Researcher - Creativity Advisor.